domingo, 18 de janeiro de 2026

"EDAC" é daqui?


 

Ao despois de depois,

andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova

e eu não gosto de língua inventada.

Sempre arreneguei de esperantos e volapuques.

Manuel Bandeira em carta a Guimarães Rosa, após leitura de Grande Sertão: Veredas.

 

Duas provocações: no título e na epígrafe: “EDAC e “volapuques”, independentes de sabermos o que Guimarães Rosa fez com a língua de Fernando Pessoa; independente do que o cirurgião torácico faz com a língua portuguesa.

Comecemos pelo Bandeira. Volapuques foi a tentativa do padre alemão Martin Schleyer (1831-1912) criar uma língua artificial em 1879, com base especial no inglês e alguns elementos do alemão, francês e latim, cujo ideário de comunicação não foi bem-sucedido (vol (mundo) + pük (fala) → Volapük = “língua do mundo”). Esse padre não é o do balão, mas voou alto para tentar alcançar a torre de Babel.

Já EDAC vem do inglês: Excessive Dynamic Airway Collapse. Isoladamente não significa absolutamente nada para quem não esteja familiarizado com o jargão médico. O paciente quando ouve toma um susto. Apesar de não se tratar de anglicismo consagrado, é sigla repleta de contexto, por isso, antes de explicar a doença, precisa-se explicar a sigla, que carrega certa musicalidade.

(Já pensou EDAC na voz do Sinatra? - EDAC, I did it my way...)

Mas aí me vem o João Aléssio, professor de Cirurgia Torácica da UNIFESP (Escola Paulista de Medicina), com essa: “I'M EDAC! AND YOU, Roger? Depois seguiu: "No Stress! Don't worry...”

Adorei a provocação. Aléssio gosta de polêmicas e discussões frajolas, e quem já acompanhou a “Reunião da Pizza” entre os paulistas sabe muito bem do que estou falando. No mais, ao me provocar, sabe que de alguma forma vou recorrer a Guimarães Rosa.

Vale Manuel Bandeira com um “plus a mais” de Guimarães Rosa? O meu volapuquês foi pra devolver a provocação a João Aléssio com o EDAC.

           Para ele, “A língua é viva e influenciável, mostra bem para onde irá um povo. As culturas mais fortes dominarão as mais fracas, seja pela força das armas e do dinheiro, como influenciando fortemente a sua própria educação [leia-se: tupi-guarani]. O que seria falar e escrever um simples EDAC nos tempos de Facebook, Instagram, Whatsapp, Twitter e até do Tik-Tok? Ocorre que EDAC isoladamente não é nada, é uma sigla de outra língua. Não é um anglicismo de domínio habitual; é uma sigla vazia”. Na postagem seguinte ele grifa: “é perda de tempo quando se tem palavra em português para definir claramente as doenças e se usa o inglês. Sempre dizemos que temos que difundir o diagnóstico do colapso da membrana posterior da traqueia para os pneumologistas e os clínicos. Imaginem... primeiro temos que explicar o significado da sigla e depois a própria doença. It’s not easy! O mundo moderno não deve ser ágil e prático? Para que confusões e ainda com outras línguas e países[?] And...be happy!"

Pelo lado de fora do João Aléssio, EDAC é exemplo qual SIDA/AIDS. Pelo lado neurolinguístico, EDAC, na voz de Frank Sinatra, tem mais sonoridade. Dá até para aportuguesar: O paciente está edaquisado - Don’t worry!!!. Talvez prefiramos EDAC não por desprezo à nossa língua, mas por impulsão, por musicalidade. EDAC inclusive nos favoreceu para escrever o título, deixando a retórica ambígua cuja oralidade se torna provocativa e com estilística típica, quase jazzística. Deixa o texto com o peso de uma pluma.

Essa discussão lingüística volapuquiana, no entanto, não diminui a importância médica do tema. Pelo contrário. Estudos recentes mostram que o colapso excessivo das vias aéreas centrais — englobando tanto o EDAC quanto a traqueobroncomalácia (TBM) — é mais comum do que se imagina e, frequentemente subdiagnosticada. Os sintomas se confundem com asma, DPOC ou refluxo, retardando o diagnóstico correto.

Do ponto de vista anátomo-funcional, há diferenças claras: no EDAC, ocorre a invaginação exagerada da parede posterior da traqueia; na TBM o problema está no enfraquecimento do arcabouço cartilagenoso, que desaba durante o ciclo respiratório. Em que pese a diferença na estrutura anatômica, o impacto clínico é semelhante: tosse intensa, dispneia, infecções respiratórias recorrentes e prejuízo da qualidade de vida.

Mas a melhor notícia vem de longe. Chao, De Angelis e cols. retratam em seu recente artigo (2025) resultados animadores do tratamento cirúrgico. Para os cirurgiões do Beth Israel Medical Center (Boston), a traqueobroncoplastia mostrou melhora significativa dos sintomas e da qualidade de vida, tanto nos pacientes com EDAC quanto nos com TBM, com taxas de complicações e desfechos semelhantes entre os grupos. Exatamente o que observamos em nossa prática cirúrgica. Em outras palavras: independente da sigla, tratar as disfunções das vias aéreas centrais funcionou bem para os 73 bostonianos que fizeram parte do estudo, com melhorias significativas na qualidade de vida e no teste de caminhada de 6min.

Escrever sobre essa polêmica não é só gesto de simpatia aos que apreciam a ambigüidade lingüística, mas acima de tudo uma divisória semântica no diagnóstico, jogando xadrez com as palavras. Esse é, a nosso ver, a maior mensagem, independente se estejamos ou não criando uma espécie de "esperanto-volapuque cibernético universal”, conforme aferiram João Aléssio e Manuel Bandeira.

Bom saber que existem esses defensores da língua-pátria. Eles mantém-se com seus volumes correntes pulmonares sem forçar a necessidade de outras línguas. Já não basta o que fizemos com o tupi-guarani e o nheengatu?

 

 Referência:

Cho JM, De Angelis P, Mathew F e cols. Tracheobronchoplasty for Excessive Dynamic Airway Collapse and Tracheobronchomalacia: A Comparative Analysis of Distinct Airway Disorders. Ann Thorac Surg 2025;120:1062-71.


Roger Normando. Professor de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará.

sábado, 10 de janeiro de 2026

La spedizione italo-amazzonica

Vengo da un paese che si chiama Pará
che ha nei Caraibi il suo porto sul mare
Paulo André e Ruy Barata, nella canzone:
 Porto Caribe

    Sulla soglia della piccola locanda, in un rituale di commiato, Marcello cammina a capo chino, respirando un’aria stanca e con gli occhi colmi di tristezza: è ora di partire. È il ritorno.

    È stato un viaggio breve con la famiglia italo-brasiliana, ma intenso — nonostante il ginocchio consumato, che ha insistito nel ricordare un passato maledetto dal calcio e da lunghi interventi chirurgici.

    Il momento culminante del viaggio è arrivato quando siamo giunti a Jamaraquá, area della Foresta Nazionale del Tapajós, nel comune di Belterra (Pará), dopo due ore di navigazione in motoscafo da Alter-do-Chão. All’arrivo, tambaqui e pirarucu ci hanno condotto a una completa pienezza prandiale. Da lì abbiamo tratto l’energia necessaria per affrontare i cinque chilometri di salita, fino a raggiungere la cima.

    Con un bastone preso in prestito dal Mosè biblico, ci siamo aperti il cammino fino a un ruscello dalle acque limpide. Ci siamo immersi per sentire il freddo della foresta ai piedi — un bagno per evocare gli spiriti della selva e versare il calore dell’anima. Dopo aver riempito le borracce con l’acqua della sorgente, abbiamo affrontato l’ultimo tratto della salita, ripido e impegnativo — il ginocchio già brontolava.

    La foresta custodisce in ognuno di noi un po’ di Curupira, Matinta-Perera e Boitatá, figure protettrici di quel santuario, parte dell’immaginario nativo. La sensazione era quella di trovarsi in un punto sacro del pianeta, sotto la loro protezione — purché non offendessimo l’impero di Jurupari.

    


Giunti al punto più alto, abbiamo deposto i bagagli e ci siamo preparati a visitare la madre di tutti gli alberi: la samaúma alta sessanta metri, a soli cento metri dal punto di appoggio. L’incontro è stato estatico. Una lezione di piccolezza. Abbiamo calcolato quante persone, mano nella mano, sarebbero servite per circondarla: diciotto. Secondo la guida, ha appena raggiunto la maggiore età — cinquecento anni.

    Tornati al campo, mentre la notte calava, ci siamo spinti fino al belvedere per contemplare l’incontro tra il fiume e la foresta. Un’immensità capace di colmare il vuoto della nostra ignoranza. In lontananza si scorgevano carichi di cereali diretti verso l’Atlantico attraverso le ampie vene del Tapajós, pronti a conquistare il mondo.

   Mentre ammiravamo l’orizzonte, le nostre guide preparavano la piracaia (dal tupi pira, pesce; caia, arrostire), con tambaqui e mapará dai sapori intensi.

    Alla fine, le amache hanno cullato la notte di tutti noi dopo i racconti inquietanti della foresta e dei suoi incantamenti, narrati da una delle guide. Spruzzi di pioggia, il canto profondo delle scimmie urlatrici e il gracidio delle rane hanno accompagnato il nostro riposo fino a tarda notte. Nel buio assoluto, l’unica luce naturale era quella delle lucciole.

    Mi sono svegliato con gli occhi aperti, in attesa dei sussurri di qualche pajé. Non sono arrivati. Abbiamo allora salutato l’ora del caffè — semplice, come tutto lì, ma sufficiente per prepararci ai cinque chilometri di discesa ripida, capaci di annientare definitivamente qualsiasi ginocchio scricchiolante.

    Durante il ritorno ci siamo imbattuti in una piacevole sorpresa: una riserva archeologica. Frammenti di ceramica dei nostri antenati. In quei luoghi vissero i Munduruku. Si suppone che ogni pezzo abbia circa cinquecento anni, sepolto dalle intemperie della foresta primaria. Chi tenta di portarne via uno come ricordo, se lo vede riprendere dal Mapinguari.

    Giunti a valle, abbiamo concluso la spedizione attraversando igapó che ospitano caimani e aquile arpie, tra la foresta e il fiume immenso. Un viaggio nel silenzio degli dèi.

    Poi siamo rientrati alla nostra base, ad Alter-do-Chão. È rimasta alle spalle un’altra tra le tante esperienze vissute in armonia con questo humus vitale.

    Questa narrazione è un atto argomentativo inserito in un contesto culturale, attraversato dal momento in cui l’Amazzonia invoca la propria sopravvivenza. È alfabetizzazione intesa come pratica sociale di chi si riconosce nella pelle della foresta, dei fiumi e dei popoli. Nulla in questo insieme di parole è privo di carattere personale — talvolta mitologico — ma tutto è condivisibile con chi respira l’ossigeno che sgorga dalla hylea amazzonica.


Testo originale in portoghese tradotto da IA (ChatGPT)

Roger Normando, professore di chirurgia toracica presso l'Università Federale del Pará.



A tal expedição ítalo-amazônica

“Eu sou de um país que se chama Pará
Que tem no Caribe seu porto de mar”

Paulo André e Ruy Barata, em Porto Caribe

Na porta da pequena pousada, em ritual de despedida, Marcello caminha cabisbaixo, respirando o ar cansado e com os olhos tomados de tristeza: é hora de partir. É a volta.

Foi uma viagem curta com a famiglia ítalo-brasiliana, mas intensa — apesar do joelho corroído, que insistiu em reclamar de um passado amaldiçoado pelo futebol e por longas cirurgias.

O epítome da jornada se deu quando chegamos a Jamaraquá, área da Floresta Nacional do Tapajós, no município de Belterra (Pará), após duas horas de barco a motor desde Alter-do-Chão. Na chegada, tambaqui e pirarucu nos levaram à completa plenitude prandial. Dali extraímos a seiva necessária para enfrentar os cinco quilômetros de subida morro acima, até alcançar o cume.

Com um cajado emprestado de Moisés bíblico, abrimos caminho até um riacho de águas diáfanas. Mergulhamos para sentir o frio da floresta nos pés — um banho para invocar os espíritos da mata e verter o chamego da alma. Após encher as garrafas com água da fonte, encaramos o último trecho da subida, íngreme e exigente — o joelho já resmungava.

A floresta guarda em cada um de nós um pouco de Curupira, Matinta-Perera e Boitatá, figuras protetoras daquele santuário, parte do imaginário nativo. A sensação era de estar em um ponto sagrado do planeta, sob sua proteção — desde que não magoássemos o império de Jurupari.

No ponto mais alto, arriamos as trouxas e nos preparamos para visitar a mãe de todas as árvores: a samaumeira de 60 metros, a apenas cem metros do apoio. O encontro foi extasiante. Uma lição de pequenez. Calculamos quantas pessoas, de mãos dadas, seriam necessárias para circundá-la: dezoito. Segundo o guia, ela acaba de atingir a maioridade — 500 anos.

De volta ao acampamento, com a noite caindo, seguimos até o mirante para contemplar o encontro do rio com a floresta. Uma imensidão capaz de preencher o vazio da nossa ignorância. Ao longe, viam-se carregamentos de grãos rumando ao Atlântico pelas veias largas do Tapajós, para ganhar o mundo.

Enquanto apreciávamos o horizonte, nossos guias preparavam a piracaia (do tupi pira, peixe; caia, assar), com tambaqui e mapará de sabores marcantes.

Ao final, as redes embalaram a noite após relatos medonhos da floresta e de seus encantamentos, narrados por um dos guias. Borrifos de chuva, o tenor das guaribas e o coaxar dos sapos acompanharam nosso descanso madrugada adentro. No breu absoluto, a única luz natural era a dos vaga-lumes.

Amanheci desperto, à espera de cochichos de algum pajé. Não vieram. Saudamos, então, a hora do café — simples, como tudo ali, porém suficiente para nos preparar para os cinco quilômetros de descida íngreme, capazes de aniquilar de vez qualquer joelho crocante.

No retorno, fomos surpreendidos por uma reserva arqueológica: fragmentos de cerâmica de nossos antepassados. Ali viveram os Munduruku. Supõe-se que cada peça tenha cerca de quinhentos anos, soterrada pelas intempéries da floresta primária. Quem tentar levar uma lembrança, o Mapinguari toma de volta.

Já embaixo, completamos a expedição atravessando igapós que abrigam jacarés e gaviões-reais, entre a floresta e o rio imenso. Uma travessia pelo silêncio dos deuses.

Depois, retornamos à base em Alter-do-Chão. Ficaram para trás mais uma entre tantas vivências harmonizadas com esse húmus vital.

Esta narrativa é uma atitude argumentativa inserida em um contexto cultural, atravessada pelo momento em que a Amazônia clama por sobrevivência. Trata-se de letramento como prática social de alguém que se vê na epiderme da floresta, dos rios e dos povos. Nada neste amontoado de palavras deixa de ser particular — por vezes mitológico —, mas tudo é partilhável com quem respira o oxigênio que brota da hiléia amazônica.


domingo, 7 de dezembro de 2025

Tuberculose e o câncer dentro e fora do livro


                                                                                       A montanha era a última forma antes do fim de tudo o que existia,

recortada no horizonte, corpo enorme que observava o mundo.

José Luis Peixoto, em: A Montanha


Para quem viaja por estrada, o horizonte finda na montanha; não se enxerga além. E a montanha assiste-nos do cume. É a metáfora de José Luis Peixoto em seu novo livro “A montanha”, em que o cancro é pano de fundo da narrativa, com a expectativa do que existe além do horizonte.

 Adendo: cancro, na língua portuguesa, usa-se em Portugal, enquanto câncer pertence ao Brasil, embora tenham o mesmo calibre. É grafado da mesma forma em inglês, mas pronunciado com a língua meio dobrada.  Em espanhol não muda. Em francês se diz "le cancer", mas fazendo biquinho. 

Tuberculose não. É a mesma grafia. No passado "tísica", hoje tuberculose, ainda ceifa muitos. No passado alvejou pulmão de poetas e de Simon Bolívar, no relato libertário (ou literário) de Gabriel Garcia Márquez.

O livro de Peixoto não é a escatologia em si, tampouco o estertor da última ausculta, entretanto, a partida de João, um dos personagens, sob calmaria, dá o tom da leitura. É uma novela sob o pendor do silêncio, sem luto. É a relação poética entre a doença, a caminhada e a montanha. Lembra em certo ponto o tuberculoso Hans Castorp, em "A montanha mágica", de Thomas Mann. É a vida fora do livro e dentro do livro. 

Tuberculose e câncer já se emboletam pela medicina há algum tempo, mas na literatura, não. Na ciência médica seus roteiros lembram o globo da morte dos circos, ou mesmo o modelo atômico de Bohr. Ambas circulam no mesmo espaço sem cruzamentos, mas vez ou outra se chocam e escalavram nossas vivências.

Ler José Luiz Peixoto, expoente da literatura mundial, fez-me lembrar mais outro: Aleksandr Solzhenitsyn, laureado pelo Nobel em “Pavilhão dos Cancerosos”. Li-o na íntegra para entender a história social do câncer, lá no começo de tudo. Dói. Peixoto não dói, pois exala analgésico na leitura, com as fragrâncias de Pessoa, Camões, Sophia de Mello. Já o russo se veste de Maiakovski e Pushkin, ambos assassinados de forma vil, sangrando as artérias da poesia mundial, deixando-nos sem pulmões. pari passu, cada página lida de Peixoto, tendo em vista o câncer, passava-me pelo canto da memória o russo Solzhenitsyn

No livro de Peixoto há um personagem oculto: Gonçalo Paupério, cirurgião torácico do Instituto Português de Oncologia (IPO-Porto). Foi quem me presenteou a obra, pelas vezes me que recebeu no IPO, quando morei com meus filhos no norte de Portugal. Ele permitiu-me ser amigo de Peixoto sem ele saber. Isso pouco importa, pois o autógrafo registra o fato e eu registro a leitura nesse ensaio.

Mas se Peixoto vem de Galveias, eu vivi na pele aquele paraense estranho que Alice (“A Montanha”), procurou saber: “provável comedor de pato no tucupi, tacacá e maniçoba”, na página 107, esquina com a Perebebuí.

       E sobre a tuberculose? Não gostaria de invadir o terreno de “A Montanha”, mas se Peixoto visitasse nosso antigo sanatório, aqui na entrada do rio Amazonas, é provável que adquirisse as alucinações de escritores para transformar nossos bacilos em personagens de literatura, tal como Thomas Mann fez com Davos, em “A montanha Mágica”. Davos é a mesma que virou centro de encontro mundial sobre economia, e que deixou a alma penada de Hans Castorp e sua pneumostomia soprante rondando em torno dos que ditam as finanças do mundo. Belém, no máximo, foi centro mundial de discussão sobre o clima (COP30), em 2025.

E se Peixoto não puder vir, que envie Bjorn Alepson, seu personagem predileto, para se deliciar com a desventura da arte de escrever sob o pendor da hemoptise, já que Saramago e José Régio se foram, assim como o nossos Manuel Bandeira, asfixiado dentro do próprio poema “Pneumotórax”. 

Vale relembrar a Bjorn que não temos montanhas. Aqui é plano e pleno e, no infinito, ainda se vê florestas. Mas aqui a vida ainda segue fora do livro.



Roger Normando, professor de Clínica Cirúrgica II (Cirurgia Torácica), Hospital Barros Barreto, Universidade Federal do Pará. Membro titulado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica e Colégio Brasileiro de Cirurgiões.


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Mar e rio bem além de nossas expectativas


 “Febre do Mar” é a minha “doença”! 
Aluísio Meira em: "No mar.. veremos"


         Mergulhando profundamente em “Blue Mind”, do estadunidense Wallace Nichols (sem tradução para a língua camoniana), resolvi dedicar alguns excertos aos Eskizitos, grupo de motonautas que aos sábados se encontram para verdadeiramente se enveredarem por rios e furos que circundam parte de Belém. É liderado pelo navegador Aluisio Meira, um cartógrafo da Amazônia que nas horas vagas exerce a advocacia.

No livro, a Outdoor Industry Association cita que 1,24 milhão de pessoas experimentaram o stand-up paddle (SUP). As vendas de pranchas de SUP logo dobraram entre 2010 e 2011, quando explodiu a prática. Embora o SUP tenha se tornado uma febre fitness apenas na última década, na verdade, é a forma mais antiga e básica de embarcação. Nossos ancestrais usavam barcos para viajar de ilha em ilha no sudeste asiático e depois para a Austrália, há mais de 50.000 anos. É claro que, hoje em dia, a maioria das atividades náuticas, desde embarcações autopropulsionadas, jet skis, lanchas e iates motorizados que exigem tripulações, têm menos a ver com transporte e mais com o prazer de aproveitar a água. 

Se você conversar com praticantes sobre os motivos que os levaram a escolher esse esporte, ouvirá algumas das mesmas razões que pescadores e surfistas: a oportunidade de estar na água de forma muito íntima. Os que usam embarcações sem motor também exaltam os benefícios para a saúde, o exercício cardiovascular, o fortalecimento muscular da parte superior do corpo ao remar por horas, além do estado meditativo que surge com as remadas rítmicas na água.

Nichols reforça que, motorizado ou não, os praticantes têm a chance de se desligar de tudo, mergulhar nas paisagens, sons e nas sensações da água em que se encontra, assim como desfrutar do ar fresco.

Com veleiros maiores e outras embarcações que exigem mais de uma pessoa, sabe-se do trabalho em equipe, confiança e aventura compartilhada. A combinação de ganhar autoconfiança enquanto se trabalha em equipe é valiosa para jovens com problemas de saúde mental e coordenação motora. 

Hoje, programas em todo o mundo utilizam embarcações como terapia de reabilitação para pessoas com deficiências físicas (incluindo paralisia, cegueira, surdez e amputação); deficiências de desenvolvimento como TDAH, autismo e síndrome de Down; pessoas com lesão cerebral traumática (LCT) e outras lesões; bem como pessoas que sofreram traumas emocionais. Em Newport, Rhode Island, e Nantucket, Massachusetts, a Sail to Prevail possui uma frota de veleiros adaptados, nos quais mais de 1.500 pessoas com deficiência aprendem o básico da vela. As embarcações incluem um barco de regata da America's Cup acessível para pessoas com deficiência.

A Sail to Prevail relata melhorias significativas: 91% têm mais confiança, 90% sentem que aumentaram suas habilidades de trabalho em equipe e incríveis 99% dizem ter uma perspectiva mais positiva da vida. Sem dúvida, o super-hormônio neuroestimulante ocitocina está em ação durante essas experiências novas, agradáveis. Tais vivências refinam os instintos sociais do cérebro, preparando os participantes para o contato social, aprimorando a empatia e aumentando a disposição para ajudar e apoiar.

Claro que existem muitas outras maneiras de desenvolver o trabalho em equipe, mas o fator água adiciona uma potência notável ao esforço, uma espécie de "plus-a-mais" - esse neologismo poliglota para reforçar a ideia. O mesmo acontece com a qualidade que você ouve com frequência de velejadores de todos os tipos, quando descrevem sua razão para se aventurarem na água: a liberdade.

Em barco, ou mesmo no Jet ski cruzando os furos de Belém, você se sente como se fosse o mestre do seu destino, o capitão da sua alma, como se percebe nas entrelinhas de “No mar... veremos”, de Aluisio Meira, o líder dos Eskizitos... e doutor nas horas vagas.

domingo, 7 de setembro de 2025

Ao saudoso mestre... com louvor!

Geraldo Pereira foi aquele professor-primeiro que abriu a porta da sala de aula para muitos. Ele nos apresentou a tuberosidade tibial, que nos apontava para o fim da adolescência. Uma reviravolta estava sendo proposta a nós. 

A sociedade médica paraense respira fundo antes do ataúde ficar soterrado. Geraldo Pereira despediu-se de olhos fechados e nos deixou a lembrança do giz.

A corda rangia a cada centímetro da descida e a claridade pisa leve no sensorial daqueles que um dia receberam os seus ensinamentos. 

A fenda aberta na terra estala como fogo mordendo lenha. Toda a cidade ouvira aquele som agudo, como se o galho verde da goiabeira ao lado da cerimônia final houvesse fraturado.

O professor envelhecido, com os olhos recolhidos e sem lágrimas, recolhe as nossas para umedecer o próprio passado. 

Pareceu-nos voltar a balbuciar segredos de como se examina o epicôndilo medial. 

Pareceu-nos sorrir o sorriso magnetizado pela alegria de viver. 

Pede que se guarde as anotações mais importantes para o exercício da profissão: retratos desse passado, anotações de rodapé, grifos que se enredam na paisagem do amanhã.

Há uma ameaça de chuva que não ocorre de fora pra dentro, apenas pelos nossos veios lacrimais.

Os livros pesados que usamos tornaram-se mais leves após cada traço de ensinamento. 

A cidade murmura ao longe o fim telúrico do mestre, ao arrastar o último passo antes de caminhar para a partida. 

Ele estudou a natureza íntima da academia, e a delicadeza do que sobra quando a voz enrouquecida se pronuncia: “pega esse pra adoçar a tua vida”.

A mão, que um dia acalentou as páginas de anatomia, agora segura o copo e bebe o cálice da salvação. 

E o copo de alumínio combina coma cor do bule para o último gole do cafezinho, agora amargo. 

A minha cena descrita pede discrição. Estou alhures, mas com olhares diluviando. 

A horizontal do professor se deslocada mais um pouco para baixo e a terra recolhe o pequeno corpo deformado pela conversão cirúrgica - certas idades não permitem trancos e incisões que ultrapassem o tamanho daquele homem.

Não vim aqui para explicar nada, mas para iluminar o pano de fundo que deixou vazio nossas salas de aulas; meu caderno de anatomia branquejou.

Ao longo da estada, Geraldo, meio-xará, tornou-se um atlas da aventura humana. 

Foi acolhido por seus alunos até a última arfada e por sua família afável, que guarda saber cifrado na melodia da generosidade.

Vieram muitos títulos, mas o que ficou foi a densa marca daquele professor que nos ensinou a sonhar na hora de receber o grau para subir os degraus daquela escadaria da Paz.

Obrigado, professor Geraldo Pereira.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Esta nova cirurgia do câncer de pulmão... Que venha!

                                                     Immediately after [1967], a number of other crucial discoveries

that would set the stage for the advent of cancer immunotherapy

were made in rapid-fire succession

William K Decker e cols, 2017.


Cada vez mais operamos casos pós-imunoterapia. É o novo normal do câncer pulmonar avançado. Já com vários-alguns casos de lobectomias e uma única segmentectomia anatômica (reserva funcional limitada), juntadas aos relatos de vários cirurgiões brasileiros, penso ser hora de descansar o bisturi por uma noite, armar a caneta de ideias e pedir uma folha em branco para expor essa nova leitura da cirurgia torácica, alcunhada de cirurgia de resgate (em inglês: salvage ou rescue com teores diferentes)

A começar pelo Atlas de cirurgia pós-imunoterapia em câncer de pulmão, coordenado por Paula Ugalde (Harvard) e Ricardo Terra (USP), recém-lançado. O livro nos catapulta para uma floresta carregada de novos fármacos e ensaios. Não são desafios mirrados, mas também não são obstáculos instransponíveis pela cirurgia. O título poderia ser “Provocações da cirurgia pós-imunoterapia...” 

O resultado dessa nova abordagem cirúrgica anima, principalmente pela exequibilidade da via minimamente invasiva, em que pese a intensa doença inflamatória residual ocasionada pelo encolhimento do tumor. Não se compara com as operações da sequelas da tuberculose, mas deve haver mais alerta à dissecção dos planos anatômicos.

Esse avanço dá maior perspectiva de vida a cada paciente com doença localmente avançada - mais de 70% dos casos. Não só isso, mas também dá respiro à própria medicina em seu aperto de mão com a oncologia, cujo tratamento de outrora nos nauseou por longas décadas. Quem já leu Pavilhão dos Cancerosos, do premiado russo Aleksandr Solzhenitsyn sabe do assunto. Naquela pós-virada de século, o campo emergente da oncologia optou pela abordagem direta ao tumor, mas citotóxica.  

Hoje, quase 120 anos depois, estabelece-se que, mesmo os melhores regimes químicos, raramente curam/controlam a malignidade avançadas. A virada foi graças a estratégias modernas que suplementam e aumentam as respostas imunes antitumorais e oferecem maiores oportunidades para potencializar a remissão duradoura do câncer. Isso passou a ser desanuviamento no peito dos desesperançosos cirurgiões.

Com a ampla aceitação desses novos paradigmas, a capacidade do sistema imunológico de reconhecer e combater o câncer, que foi tópico altamente controverso durante grande parte do século XX, hoje pede revanche para dar fôlego à humanidade.

Mas coisa não caminhou a pari passu com a quimioterapia. Foi uma trovejada desde 2017, com o estudo Pacific. Qualquer cirurgião que tenha montado no seu SpaceX e viajado para outro planeta por alguns anos, ao tentar aterrissar no campo operatório, certamente tomará um susto ao tentar entender essa letraria do novo léxico oncológico.

Esse pilar paradigmático moderno permaneceu duvidoso e controverso por longo período. Por quê? É merecendente de discussão franca, mas nada que uma releitura mais otimista faça-nos entender que a genética, trancafiada nos jardins de Mendel, teve que se converter em genômica e romper as cercas para alcançar o núcleo médico e nos encantar. Foi o pó do pirlimpimpim que os biólogos nos proporcionaram!

A literatura médica todos os dias tem espasmos e parteja novidades com ensaios decisivos que nos levam à aceitação da imunoterapia e outras terapias como regime viável para o tratamento das neoplasias. A última boa-nova é o tratamento peri-operatório (imunoterapia+Qt/cirurgia/imunoterapia) que acaba de ser aprovado pela ANVISA. É o "Durva" novamente - tomo emprestado a intimidade dos oncologista para com o Durvalumabe. 

São marcos de randomizações e os modelos críticos de laboratórios, cuja soma amplia nossa compreensão da biologia do câncer e da imunologia tumoral. Permite-nos avaliação mais rápida da eficácia e segurança de novas abordagens e, em última análise, fornece banco de dados mais rápido para a transição, em que a cirurgia é parte dessa virada, assim como ocorre na tuberculose multirresistente (vale ressaltar que parte do tratamento da TBMR, assim como da falência do tratamento das micobacterioses não tuberculosas valem-se do que se outorgou hoje como tratamento peri-operatório usado no câncer).

Então continuemos enfrentando essa nova cirurgia como "resgate" da velha tísica. Só assim olhamos para esse presente sem desaquecer o passado, onde tudo começou.

Bibliografia consultada

Van Breussegem A., Hendriks J. M., Lauwers P., and Van Schil P. E., “Salvage Surgery After High‐Dose Radiotherapy,” Journal of Thoracic Disease 9, no. S3 (2017): S193–S200

Beatrice Leonardi , Gaetana Messina , Giuseppe Vicario, et al. Rescue Surgery for Advanced Stage Lung Cancer: A Systematic Review. Thorac Cancer. 2025 Aug;16(16):e70151.

William K DeckerRodrigo F da SilvaMayra H Sanabria. Cancer Immunotherapy: Historical Perspective of a Clinical Revolution and Emerging Preclinical Animal Models. Front Immunol. 2017 Aug 2;8:829.


domingo, 17 de agosto de 2025

Lung Cancer in Latin America: A Reflection on Advanced Cases

        A bookstore in the airport of Boston exposes the headline on its cover "The death doctors", which exposes euthanasia in Canada. I acquired it to read during the flight, back to Brazil.
        The Patient, in 2015, soon after supreme-court decision about euthanasia, had just been diagnosed with lung cancer, and while processing this fact in the parking lot of the clinic, turned to his wife and announced: “I'm not going to have cancer. I'm  going to kill myself.” His wife told her husband this was a bit dramatic: “You know, dear, you don't have to do that,” she recalls responding. “The government will do it for you, and they'll do it for free” He had marveled at the news, because although he was open to surgery, he had no interest in chemotherapy or radiation (the cancer had been spread to the brain) and the 72-year-old became largely bedridden. “ He scheduled his procedure for May 10 - the couple's wedding anniversary.
         "Cancer is a terrific disease. We need volunteers, not superheroes", as I said to Ugalde, a leading thoracic surgeon, in the hall of Brigham and Women’s Hospital in Boston, after a session discussing difficult lung cancer cases. She didn’t disagree. After listening and reflecting, she returned to the classroom with a coffee in her right hand - she loves coffee!
     "The Immersion Course on Comprehensive Lung Cancer Treatment and Surgical Innovation" was held at Harvard Medical School Teaching Hospital. Some 120 Latin Americans, most of them thoracic surgeons, had arrived for the annual event. There were lunch buffets, badges, and complimentary bags and surgical caps as souvenirs.
        The most important aspect was learning new technologies and concepts from experts in lung cancer treatment. After all, this allows us to reflect on one of medicine’s most important challenges. While there might have been other conventions around the world, Latin American thoracic surgeons are enthusiastic participants who pay close attention, because lung cancer is an important cause of death worldwide and facing advanced cases remains so challenging.
          The difference is that 10 years ago, what many of these surgeons do for work would have been considered merely an attempt, but nowadays we breathe hope. That is why many of us are at Harvard, interpreting a new era of genomics and immunobiological drugs, while facing each surgical indication when we return home.
        It is too soon to predict the future, whether it’s tomorrow or in the next 10 years, but it isn’t so far away when you add new drugs and new surgical techniques (VATS, RATS, ECMO, etc.). Leading this explanation, as I understand it, are Thomas D’Amico, Bernardo Park, Scott Swanson and Isabelle Opitz—all supported by Paula Ugalde, the team leader for Latin surgeons and an associate professor of thoracic surgery at Harvard Medical School and Brigham and Women’s Hospital.
        We know that lung cancer remains challenging due to its high mortality, but if we commit ourselves to scientific production in major medical centers, perhaps voluntarism will move forward and relegate the current limitations to a page in the past, especially in Latin America of these surgeons do for work would have been considered merely an attempt, but nowadays we breathe hope. That is why many of us are at Harvard, interpreting a new era of genomics and immunobiological drugs while facing each surgical indication when we return home.
          
           We know that lung cancer remains challenging due to its high mortality, but if we commit ourselves to scientific production in major medical centers, perhaps voluntarism will move forward and relegate the current limitations to a page in the past, especially in Latin America.


Roger Normando,
Professor de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará, Brasil.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Confessions on my dead skin

The crack, crack, crack of broken ribs 
with each chest compression greeted me 
at the door. The death clock had started

Paul Ruggiere, surgeon and writter, in: Confessions of a surgeon


    When I die, if my body doesn't putrefy immediately and still remains for a few hours under the equatorial sun, I will ask my children and my wife, accustomed to tattoos, to hire a good tattoo artist to ink in the middle of my chest the classic phrase by René Leriche: Every surgeon carries within himself a small cemetery, where from time to time he goes to pray – a place of bitterness and regret, where one must seek an explanation for his failures.

    May this phrase weigh on my chest like a cross of angelim-pedra wood, the same that every surgeon carries throughout his work, but remains unconfessed and circumspect. May it remain corrosive, marked with iron and fire, on raw flesh, since there will no longer be pain. Afterward, just lower the coffin and say the final prayer over the body.

    These granular confessions, sometimes thorny to those who lack nerve, don't lead me to think there's a flaw in our academic training, or some common deviation in surgical education. It's that the retinue of Ambroise Paré lives with their souls downcast, with bulging eyes in society since the times of Hammurabi.

    Let me explain. For many years of my life I worked in emergency rooms. I won many battles, but lost some. With each loss, a part of me went away. When I returned home to confess, I reflected on what I could have done better to save that young man who arrived with a gunshot wound in the middle of his lung, or at the edge of his heart. I confessed by leafing through books; I searched for the maneuver I didn't perform, looking at the tip of my shoe stained with drops of blood.

    It was many years in this routine, until one day the book by physician and historian Luis Mir fell into my lap: Civil War and Trauma – trauma in the sense of physical traumatism, urban violence. It was a gift from a friend. In that tome of almost a thousand pages I found the pearl I needed: Trauma forces surgeons to recover for medicine a more attentive dimension of human limitations, definitively abandoning any temptation or more hidden delirium of omnipotence. That was what I needed to read. I felt consoled and, if I carried some god beneath my skin, that stoic reading made me lose my omnipotence.

    I would also ask my family for a second tattoo. Now on my back. I would ask them to have this text by Mir printed there.

    When that young man left Marajó Island heading to the capital, searching for a solution to his bronchial tuberculosis, I immediately thought I was capable of correcting that idiosyncrasy with new concepts and techniques I master, not to mention the alliance with technology. I hit a brick wall. It was shards of wisdom in every direction. Few pieces remained of what I had learned from my masters and read from the greatest authors.

    That Saturday, upon arriving home, I sat before the bible, this kind of cemetery that Leriche proclaims, to confess this latest failure. My gaze shifted to Mir's book – right in front of me. I saw myself impassive, fragile and almost boneless. That syncopated reading welcomed my tears to that confession.

    The prayers of René Leriche and Luis Mir have significance for surgeons who confess on their knees, although we know that not all recognize themselves within them.

    They are words that adorn the silence.


Roger Normando - Professor of Thoracic Surgery, University of Pará.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Confissões sobre minha pele morta

                           The crack, crack, crack of broken ribs with each chest compression greeted me

at the door. The death clock had started

Paul Ruggiere, in: Confessions of a surgeon

  

Quando morrer, se meu corpo não putrefar de imediato e ainda permanecer algumas horas sob o sol do equador, vou pedir para meus filhos e minha esposa, acostumados com tatuagens, contratarem um bom tatuador para tinturar no meio do peito a clássica frase de René Leriche: “Todo cirurgião carrega consigo um pequeno cemitério, onde de tempos em tempos vai rezar – um lugar de amargura e arrependimentos, onde se deve buscar uma explicação para seus fracassos”.

Que essa frase pese no meu peito feito cruz de angelim-pedra, a mesma que todo cirurgião carrega ao longo de sua lida, mas segue inconfesso e circunspecto. Que fique corrosiva, marcada a ferro e fogo, em carne viva, já que não mais haverá dor. Depois é só descer o esquife e fazer a última oração de corpo presente.

Essas confissões granulares, por vezes espinhosas aos que não têm nervos, não me levam a achar que haja falha em nossa formação acadêmica, ou algum desvio na formação cirúrgica. É que o séquito de Ambroise Paré vive com suas almas acabrunhadas, com olho esbugalhado na sociedade, desde os tempos de Hamurábi.

Explico. Durante muitos anos de minha vida convivi em pronto-socorros. Ganhei muitas, mas perdi batalhas. Em cada perda um pouco de mim se ia. Quando voltava pra casa para me confessar, refletia sobre o que eu poderia ter feito de melhor para recuperar aquele jovem que chegou com um tiro no meio do pulmão, ou na beirada do coração. Eu me confessava folheando livros; procurava a manobra que não fiz, olhando para o bico do sapato manchado com gotas de sangue.

Foram muitos anos nessa pisada, até um dia cair em meu colo o livro do médico e historiador Luis Mir: Guerra civil e trauma – trauma no sentido de traumatismo físico, violência urbana. Foi presente de amigo. No calhamaço de quase mil páginas achei a pérola que precisava: O trauma obriga cirurgiões a recuperarem para a medicina uma dimensão mais atenta das limitações humanas, definitivamente abandonando qualquer tentação ou delírio mais oculto da onipotência. Era o que precisava ler. Senti-me consolado e, se carreguei algum deus debaixo da pele, aquela leitura estóica me fez perder a onipotência.

        Também pediria aos meus uma segunda tatuagem. Agora nas costas - que deixassem estampar esse texto do Mir.
      
    Quando aquele jovem abandonou a ilha do Marajó em direção à capital, na busca de uma solução para sua tuberculose brônquica, eu logo achei que fosse capaz de corrigir aquela idiossincrasia com novos conceitos e técnicas que domino, sem falar da aliança com a tecnologia. Dei com os burros na parede. Foi caco de sabedoria pra tudo que é lado. Sobraram poucos pedaços do que havia aprendido com os mestres e lido nos maiores autores.

Naquele sábado, ao chegar em casa, sentei-me à frente da bíblia, essa espécie de cemitério que Leriche apregoa, para confessar mais esse fracasso. O olhar se desviou para o livro de Mir – bem à minha frente. Vi-me impávido, frágil e quase desossado. Aquela leitura sincopada acolheu meu pranto àquela confissão.

As orações de René Leriche e Luis Mir têm representatividade para os cirurgiões que se confessam de joelhos, embora saibamos que nem todos se reconheçam dentro delas.

São palavras que adornam o silêncio.